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2 de Julho de 2022

O que a literatura pode fazer por sua advocacia

Carlos Eduardo Vinaud Pignata, Advogado
há 2 anos

Quando eu ainda estava na faculdade, lembro que um dia cheguei mais cedo para uma aula. Sentei num banquinho que ficava em frente as salas e onde os alunos costumavam bater papo nos intervalos.

Naquela ocasião, um colega sentou ao meu lado e começarmos a conversar de forma bastante descontraída. Até que entrei no assunto de leitura.

Resolvi comentar com ele sobre um livro incrível que eu estava lendo. Se não me falha a memória, era Crime e Castigo, do famoso escritor russo Dostoiévski.

Eu e alguns colegas havíamos criado um grupo de leitura literária e fomos muito incentivados por um grande professor que ministrava as aulas de Ética.

Porém, esse meu colega disse que não lia livros de ficção e que não tinha tempo para isso. Segundo ele, livros de ficção não lhe agregavam muita coisa e ele estava abarrotado de matérias de Direito para estudar.

Eu fiquei calado e apenas me limitei a dizer que realmente tínhamos muitos o que estudar. Engraçado que essa singela conversa me marcou bastante, principalmente pelas reflexões que passei a ter em relação a literatura.

Apesar de sempre ter gostado de ler, parece que, desde então, eu nunca tinha parado para refletir de verdade sobre o que a literatura representava na minha vida.

Ela seria um mero passatempo? No que ela poderia me auxiliar como pessoa e como profissional? Será que estou perdendo tempo lendo histórias de ficção que não trazem um resultado prático imediato?

O tempo passou e depois de mais de dez anos de formado e de alguns livros lidos, posso categoricamente afirmar que não consigo mais me ver longe dos livros literários.

Sinto como se todas as histórias que li fizessem hoje parte do que eu sou, inclusive, profissionalmente.

Os livros me ensinaram como é bela a arte de contar uma história e como a partir dela podemos nos expressar, transmitir sentimentos e, até mesmo, vivermos vidas completamente diferentes da nossa.

E digo mais, a literatura é capaz de nos fazer compreendermos melhor a dor do próximo. Ela nos faz enxergarmos aquilo que não conseguimos ver com nossos próprios olhos.

Como advogado, sei que é essencial entendermos a dor do nosso cliente. Precisamos ter empatia e nos colocarmos no lugar dele para buscarmos efetivas soluções para seus problemas.

Sempre que vamos produzir algum tipo de conteúdo jurídico para o nosso público, a primeira coisa que precisamos identificar é a dor das pessoas que se encontram em determinada situação, para, somente depois, propormos soluções práticas.

Além disso, a literatura nos dá ferramentas para contarmos uma boa história. O advogado também é um contador de histórias.

As boas histórias geram identificação. As pessoas se veem representadas nelas e quando você cria um texto ou artigo, nada melhor do que começar contando uma boa história.

Desde que o mundo é mundo, o ser humano sempre foi apaixonado por narrativas. Elas serviram e ainda servem muito como pano de fundo na transmissão de uma mensagem.

O advogado, quando escreve uma petição inicial, antes de apresentar qualquer argumento jurídico, precisa apresentar ao juízo os fatos, que nada mais são do que uma história.

E, te garanto uma coisa, quanto melhor os fatos forem contados, maiores serão suas chances de êxito. Uma história bem contada deixa marcas e você pode fazer com que seu processo não seja só mais um dentre milhares de outros.

Quanto mais claro você for na exposição dos fatos, quanto mais simples for o seu vocabulário, abolindo os arcaicos jargões jurídicos, maiores serão suas chances de êxito em conseguir passar a mensagem pretendida.

E, para que isso seja feito, nada melhor do que nos espelharmos nos grandes contadores de história da literatura.

Hoje, se eu pudesse ter aquela conversa novamente com o colega da faculdade, com certeza o aconselharia a ler muita literatura, para que ele, antes mesmo de ser um operador do direito, possa aprender com os grandes autores a também ser um contador de história.

“Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro.” Henry David Thoreau

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44 Comentários

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A literatura mudou minha advocacia (para melhor, claro)! continuar lendo

E eu aprendi muito com você. Aliás, ainda aprendo. continuar lendo

as pessoas no Brasil tem a mentalidade de que a leitura e o estudo devem servir pra alguma coisa "rentável", os estudos em si devem apenas servir pra ganhar dinheiro ou para melhorar de vida

quando na verdade a literatura/estudo tem o fim em si mesmo, dentre várias coisas é contemplar a beleza da imaginação humana e admirar a sua insignificância diante de tantos gênios que viveram antes de nós como o autor que você citou continuar lendo

Muito coerente!

A interação da direito com a cultura é o suporte para uma boa interpretação e aplicação da norma.

Deixo essa frase para reflexão: “Questão que não tem resposta: a ficção copia a realidade ou a realidade imita a ficção?” (Carlos Heitor Cony). continuar lendo

Obrigado por comentar, meu amigo!!!! continuar lendo

Muito bom o seu artigo, desperta a gente para continuar firme na leitura, lamentavelmente comecei a lê literatura depois de formado, pois pensava igual seu amigo de faculdade, achava que tinha que lê só matéria do direito, mas felizmente mudei de idéia. continuar lendo

Obrigado!!!!! Nunca é tarde para mudarmos nossos paradigmas. continuar lendo

Fantástico!
Amo literatura!
E como ela é transformadora. continuar lendo

Obrigado!!!!! É muito bom se envolver com uma boa história, não é verdade! continuar lendo